Fé a serviço da vida
A igreja do Senhor Jesus sempre foi diaconal! A Bíblia mostra Jesus como aquele que veio para servir (Mc 10.45), dando o exemplo a ser seguido pela igreja. Seguir a Jesus é fazer o que ele fez, é amar como ele amou, é servir como ele serviu. O ministério de Jesus nos ensina que a diaconia fazia parte da sua missão. Jesus ensinava aos discípulos o que deve caracterizar o verdadeiro cristão, a disposição para servir. Servir a Deus e ao próximo como ações interligadas e indivisíveis. Não se pode servir a Deus sem que necessariamente se esteja servindo ao próximo e vice-versa (Mt 25.31-46). Gustavo Gutiérrez, em seu livro “Teologia da Libertação”, escreveu: “O amor das pessoas para com Deus se torna visível e concreto no amor ao próximo. O próximo não é a pessoa que eu encontro em meu caminho, mas, sim, a pessoa em cujo caminho eu me coloco”. Jesus, em sua vida, percorria as cidades e aldeias, vendo as pessoas e a multidão. Identificava-se com as dores e o sofrimento humano. Para esses, ele sempre tinha uma palavra de ânimo e esperança. Em todas as situações, Jesus demonstrou muito respeito, amor e compreensão para com as pessoas. Jesus não atropelava ninguém; tinha paciência e caminhava junto. Para seguir o exemplo de Jesus, é preciso ver, ouvir e conhecer a realidade das pessoas, suas histórias, seu modo de pensar. Deus nos deu essa capacidade de ver, ouvir, sentir, tocar, amar e compreender. Como temos usado essa capacidade? A fé precisa colocar marcas em nosso contexto de vida e esperança. Olhar para Jesus é ver Deus sofrendo e chorando pelo ser humano. Olhar para Jesus é ver Deus compreendendo e sentindo a dor daqueles que sofrem.
A igreja deve ter consciência de que a fé que professamos deve ser coerente com a nossa prática, através de ações concretas a favor da vida, que é o bem maior que Deus nos deu. Falamos em ter consciência porque a igreja sempre tem visto a diaconia como uma atividade desenvolvida somente por aqueles que são eleitos. Segundo, porque a diaconia tem sido tratada como uma atividade secundária na vida da igreja. A igreja na sua maioria tem entendido que a sua missão é a proclamação do evangelho, usando para isso somente o discurso. A prática, a vivência do evangelho através de ações concretas às pessoas, nem sempre é vista como cumprimento do “Ide” de Jesus. Terceiro, porque quando a igreja faz diaconia, salvo algumas exceções, não tem passado de mero assistencialismo. É a prática da beneficência acrítica, que apenas atenua os conflitos sociais, mas mantém o status quo, criando uma dependência das pessoas que são ajudadas e, inconsciente e muitas vezes conscientemente, nos colocando como dominadores e as pessoas assistidas como dominadas. Isto gera sempre alienação e nunca libertação. Quarto, porque a igreja existe para servir ou, então, ela está morta. A igreja que prega o evangelho, mas falha na sua prática diaconal, fica desacreditada. É através do serviço ao próximo que demonstramos o amor de Deus.
O serviço não pode ser visto como uma atividade secundária, mas como missão da igreja e parte integrante da espiritualidade cristã. Para muitos, a espiritualidade é vivenciada por aquele que ora, lê a Bíblia, vai à igreja sempre, que canta alegremente ao Senhor, que faz jejum, etc. Servir ao próximo é ação social. Mas nós fazemos diaconia ou ação social? A igreja do Senhor Jesus faz diaconia porque é movida pela ação de Deus em sua vida.“Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo...” (Mt 22.34-40) - é isso que fundamenta a espiritualidade da igreja e, consequentemente, o seu ministério diaconal. Certamente que isso vai desembocar numa ação social, mas não é só isso! Diaconia é obediência ao chamado de Deus que não se cala diante das injustiças que são cometidas contra a vida. Deus não aceita o nosso culto sem que esse esteja comprometido com a vida, a justiça, a garantia da cidadania, a solidariedade (Isaías 58.1-12; Amós 5.21-24).
Para que possamos ser uma igreja diaconal é necessário rever a nossa espiritualidade. A nossa espiritualidade está distorcida, porque a entendemos apenas como um relacionamento vertical – eu e Deus – e nos esquecemos do relacionamento horizontal – eu e o próximo. Isto fica evidente nos textos bíblicos que decoramos, em que a ênfase é sempre naquilo que Deus fez ou pode fazer por nós, o que torna esse relacionamento utilitário. Queremos sempre saber das promessas de Deus para nós, mas nos esquecemos que elas sempre vêm acompanhadas das nossas responsabilidades. Portanto, a igreja diaconal é aquela que vive uma espiritualidade integral, promovendo a vida em meio à morte e seus sinais.
O Antigo Testamento mostra-nos um Deus que atua na história humana, que se mostra solidário com os oprimidos, os explorados, os marginalizados. Vemos essa preocupação de Deus em vários textos bíblicos que apontam a ira de Deus contra as injustiças que geram a morte. Deus é mostrado como o libertador dos oprimidos que exige o mesmo compromisso de seu povo como manifestação de sua espiritualidade.
A igreja é uma comunidade servidora e exerce esse ministério na medida em que comunica vida aos mortos (evangelização), que luta contra a morte e os seus sinais (atendendo aos necessitados), tal como fez a igreja dos macedônios diante da tragédia dos irmãos de Jerusalém (2Co 8.1-15). A igreja deve servir como Jesus amou de fato e de verdade. Um amor que é concreto e palpável. As pessoas só vão conhecer o amor de Deus, se a igreja demonstrar esse amor, assim como Ele fez na cruz do Calvário. “Deus amou ao mundo de tal maneira, que deu o seu único filho, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16). Esse texto mostra o amor de Deus em toda a sua concretude. Se o versículo tivesse parado só na declaração de amor, jamais saberíamos o tamanho do amor de Deus. Mas continua e mostra de forma concreta o amor de Deus, dando o seu filho para morrer em nosso lugar. É por isso que João diz: “Filhinhos, não amemos só de palavras, de conversa; o nosso amor deve ser verdadeiro, que se mostra por meio de ações”(1Jo 3.18). Não podemos aceitar um cristianismo diferente desse de que João está falando e que Jesus viveu. Somos e devemos ser conhecidos como uma comunidade do amor e esse amor deve ser incondicional, sem esperar nada em troca, mostrado através do serviço ao próximo, ou seja, uma igreja que vive a sua fé em favor da vida.
Rev. Marcos Nunes da Silva
1º Secretário da Assembleia Geral da IPIB
(fonte:https://www.ipib.org)
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